O banco vemelho do Jardim Ipê

By maricosta

Tenho consultas psiquiátricas toda a semana, o que deve significar que eu tenho, no mínimo, um problema. A questão é que era uma tarde quente de terça-feira e meu humor estava ótimo – eu tenho meus ataques de otimismo – mesmo sabendo que encararia dois ônibus até chegar em casa. “Tudo bem, Mari, fácil, tu tá com uma baita barriga, tri grávida! Chega nos bancos vermelhos e PÃN, alguém VAI te dar lugar.” isso era o que eu pensava. Entrei no Jardim Ipê cheio, tá, eu era a única pessoa em pé. Cheguei perto dos bancos vermelhos e vi uma guria de uns 15/16 anos sentada, bem bonitinha, com sua bolsinha fora de moda, postei-me do lado dela e fiquei esperando o gesto. Esperei 5min e, vendo que o único gesto que eu veria seria um sorrisinho de compreensão da sra que estava sentada ao lado dela, não me aguentei:

- Oi, tu tá na escola?

- Sim.

- E já aprendeu a ler?

- Sim.

- E a compreender o que lê?

- Sim.

- Então tu pode ler e interpretar o que está escrito ali naquele adesivo da janela? – E, juro, disse tudo isso com um sorriso no rosto, NA MELHOR DAS INTENÇÕES! Ela leu mentalmente, virou o rostinho angelical para mim e retrucou:

- Eu paguei. – Daí não me segurei, ia mandar ela longe, mas a educação, graças a Deus, falou mais alto:

- Eu também, então, por favor, sai do lugar que é reservado pros idosos, gestantes e deficientes, ok? – A guria ficou num vermelhão e levantou, sob o olhar estupefato da sra ao seu lado – acho que ela não achou que eu fosse resolver meu problema com um sorriso no rosto. Quando sentei faltavam três paradas pra chegar ao meu destino, mas tudo bem, pelo menos eu consegui o lugar que era meu POR DIREITO.

Mari

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